quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Desabafo do delegado.

Este e-mail-desabafo foi recolhido nos comentários do post  http://blogdofavre.ig.com.br/2012/09/brasil-atingiu-em-2011-a-menor-desigualdade-social-da-historia/#comments


From: Dr. Rogerio SECCIONAL DE DIADEMA rhogherhoo@yahoo.com.br
Subject: DESABAFO DO DELEGADO


Caros Colegas;

Se em qualquer cidade americana os índices de criminalidade atingissem os níveis de São Paulo (Capital, nem vamos falar do interior) estariam discutindo o impeachment do prefeito e a Guarda Nacional já teria sido acionada.

Se em qualquer pais europeu bandidos estivesse matando policiais como moscas, fazendo arrastões em restaurantes e roubando mais de mil carros por
mês o presidente estaria se explicando e os responsaveis pela segurança estariam demitidos a muito tempo.

Se nos paises da América Latina o crime já fosse uma carreira e as prisões fossem “faculdades”, a sensação de insegurança da população fosse total, os pequenos delitos fossem ignorados, um grupo de marginais dominassem as cadeias e se denominassem “um partido”, o exército estaria planejando um golpe de estado.

Se em qualquer lugar do mundo os chefes da segurança viessem a público falando boçalidades, mentindo e menosprezando a inteligência média da população, seriam exonerados de suas funções e execrados pela opinião pública.

Pois meus amigos, tudo isso acontece em São Paulo e o responsável por todo esse caos é prestigiado pelo governador, elogiado pela Revista Veja e mantido no cargo, inobstante ter demonstrado toda sua incompetência, prepotência e incapacidade para garantir a segurança da população.

Já passou da hora do senhor governador explicar porque o mantém no cargo.

Desculpem o desabafo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Tecnologia versus Humanidade igual Idiotia?

E chegou o dia que Einstein anunciou...

Tomando um café...


 


Confraternizando no restaurante...


 


Desfrutando a beleza num Museu...




Conversa
ndo amistosamente num bar ...



Gozando um bom dia de praia...


 


Divertindo-se com a namorada...

 

Apreciando a cidade ...


 



Albert Einstein:
"Temo o dia em que a tecnologia se sobreponha à nossa humanidade. O mundo só terá uma geração de IDIOTAS."


 

sábado, 1 de setembro de 2012

ESCREVO TEU NOME



Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome
Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome
Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome
Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome
Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome
Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome
Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome
Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome
Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome
Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome
Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome
Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome
No fruto partido em dois
De meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome
Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome
No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome
Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome
Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome
Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome
Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome
Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome
E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar
LIBERDADE

Paul Éluard
Tradução de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira

segunda-feira, 23 de abril de 2012

CONTA TUCANO


Esta matéria, CONTA TUCANO, foi publicada na revista ISTOÉ, edição 1741, de 12 de fevereiro de 2003. Amaury Ribeiro Jr é autor do livro A PRIVATARIA TUCANA, lançado em dezembro de 2011, em que denuncia José Serra e sua filha Verônica ,entre outros, por atos de corrupção nas privatizações do governo FHC.

Investigações revelam que o ex-caixa de campanha do PSDB movimentou US$ 56 milhões por intermédio de contas no Banestado dos EUA

Amaury Ribeiro Jr. de Foz do Iguaçu, Sônia Filgueiras e Weiller Diniz


Documentos a que ISTOÉ teve acesso começam a esclarecer por que o laudo de exame financeiro nº 675/2002, elaborado pelos peritos criminais da PF Renato Rodrigues Barbosa, Eurico Montenegro e Emanuel Coelho, ficou engavetado nos últimos seis meses do governo FHC, quando a instituição era comandada por Agílio Monteiro e Itanor Carneiro. Nas 1.057 páginas que detalham todas as remessas feitas por doleiros por intermédio da agência do banco Banestado em Nova York está documentado o caminho que o caixa de campanha de FHC e do então candidato José Serra, Ricardo Sérgio Oliveira, usou para enviar US$ 56 milhões ao Exterior entre 1996 e 1997.

O laudo dos peritos mostra que, nas suas operações, o tesoureiro utilizava o doleiro Alberto Youssef, também contratado por Fernandinho Beira-Mar para remeter dinheiro sujo do narcotráfico para o Exterior. Os peritos descobriram que todo o dinheiro enviado por Ricardo Sérgio ia parar na camuflada conta número 310035, no banco Chase Manhattan também em Nova York (hoje JP Morgan Chase), batizada com o intrigante nome “Tucano”. De acordo com documentos obtidos por ISTOÉ, em apenas dois dias – 15 e 16 de outubro de 1996 – a Tucano recebeu US$ 1,5 milhão. A papelada reunida pelos peritos indica que o nome dado à conta não é uma casualidade.

Os dois responsáveis pela administração da dinheirama, segundo a perícia, são figurinhas carimbadas nos principais escândalos envolvendo o processo de privatização das teles e auxiliares diretos de Ricardo Sérgio: João Bosco Madeiro da Costa, ex-diretor da Previ (o fundo de pensão do Banco do Brasil) e ex-assessor do caixa tucano na diretoria internacional do BB, e o advogado americano David Spencer. A perícia revela ainda que Spencer é procurador de Ricardo Sérgio em vários paraísos fiscais. Ao perseguir a trilha do dinheiro, os peritos descobriram que os milhões de Ricardo Sérgio deixavam o País por intermédio de uma rede de laranjas paraguaios e uruguaios contratados por Youssef e eram depositados na conta 1461-9, na agência do Banestado em Nova York antes de pousar na emplumada Tucano, que contava com uma proteção especial para dificultar sua localização. Ela estava registrada dentro de outra conta no Chase em nome da empresa Beacon Hill Service Corporation. De lá, o dinheiro era distribuído para contas de Ricardo Sérgio e de João Bosco em paraísos fiscais no Caribe.

A perícia traz outras provas contundentes. A PF conseguiu comprovar que parte do dinheiro enviado por intermédio do Banestado retornou ao Brasil para concretizar negócios desse mesmo grupo. Segundo o laudo, o dinheiro voltava embarcado em uma conta-ônibus junto com recursos de várias offshores (empresas em paraísos fiscais com proprietários sigilosos) operada pelo próprio João Bosco.

Os peritos conseguiram, por exemplo, identificar o retorno de US$ 2 milhões utilizados para comprar um apartamento de luxo no Rio de Janeiro em nome da Rio Trading, uma empresa instalada nas Ilhas Virgens Britânicas. Foram rastreados também imóveis em nome da Antar, sediada no mesmo paraíso, em nome de Ronaldo de Souza, que, segundo a PF, é sócio, procurador e testa-de-ferro de Ricardo Sérgio.
Pelas características dos depósitos, que eram frequentes, suspeita-se que, por esse mesmo duto de lavagem, também passaram contribuições de campanha. Além disso, Youssef tinha em sua carteira principalmente dois tipos de clientes: narcotraficantes e políticos. O laudo concluiu ainda que Ricardo Sérgio, enquanto ocupava o cargo de diretor internacional do BB, ajudou a montar o esquema bancário que operava com dinheiro de doleiros na fronteira, depois transferido para a agência nova-iorquina do Banestado.

Os documentos anexados ao laudo provam o envolvimento do advogado e procurador de Ricardo Sérgio, David Spencer, na abertura e movimentação da conta 1461-9, em nome da empresa June International Corporation. Um ofício do gerente do Banestado, Ercio Santos, encaminhado ao doleiro Youssef em 20 de agosto de 1996, atribui a Spencer a responsabilidade pela abertura da conta. “Segue cópia dos documentos referentes à abertura da June, em 8 de agosto de 1996. Recebemos hoje do David Spencer”, diz a primeira linha da correspondência na qual Ercio informa Youssef a respeito dos procedimentos para movimentação da conta. Na carta, Youssef é tratado intimamente por “Beto” e, ao se despedir, o gerente manda “um grande abraço”.

Ercio Santos sabia que mexia com dinheiro sujo. Informa, no documento, que preferiu não enviar selo da June por malote para não chamar a atenção. O selo, uma espécie de carimbo metálico, traz a identificação da empresa no paraíso fiscal onde foi instalada. A perícia comprovou também que, além do dinheiro do tucanato, Spencer ajudou a lavar recursos desviados do Banco Noroeste e do Nacional. Casado com uma brasileira, o americano conheceu Ricardo Sérgio no Brasil quando o ex-diretor do BB ocupava um cargo de direção no Citibank. Por falar português fluentemente, tornou-se advogado de banqueiros brasileiros no Exterior.

Como procurador de Ricardo Sérgio, conforme o relatório, Spencer abriu em 1989 a empresa Andover International Corporation nas Ilhas Virgens Britânicas. Spencer – que era também tabelião em Nova York – tinha respaldo legal para fechar as compras de imóveis no Brasil em nome das empresas offshore de Ricardo Sérgio e sua turma, mantendo os nomes dos verdadeiros donos em sigilo. Em uma dessas operações em 1989, por exemplo, Spencer lavrou uma procuração em nome do engenheiro Roberto Visneviski, outro sócio do tesoureiro tucano, para representar a empresa Andover na compra de um conjunto de salas na avenida Paulista, avaliado em R$ 1 milhão.

Para especialistas em lavagem de dinheiro, a operação é suspeita porque Visneviski assina duas vezes a transação: como vendedor e como comprador. “Obviamente, a Andover é do próprio Ricardo Sérgio. Foi uma operação clássica de internação de dinheiro”, avalia o jurista Heleno Torres, um especialista na investigação de operações de lavagem. Essa é apenas uma das 137 contas que já estão periciadas nos inquéritos. Por elas trafegaram US$ 30 bilhões. A polícia calcula que mais de 90% dessa montanha de dinheiro é ilegal, mais da metade resultado de sonegação de impostos através de caixa 2.

Reação – As denúncias publicadas na última edição de ISTOÉ que revelaram a sangria via Banestado caíram como uma bomba dentro do governo. Já no sábado 1º, um assessor direto do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, procurou o diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, pedindo informações sobre o laudo. Depois de conversar com o delegado Antônio Carlos Carvalho de Souza, atual responsável pelo caso, e com os peritos que trabalharam no escândalo, Lacerda comandou o reagrupamento de todos os policiais que já participaram da operação. Na quinta-feira 6, o chefe da PF reuniu a equipe e determinou a criação de uma força-tarefa da PF em parceria com o Ministério Público e com a Justiça.

Além de Carvalho, o delegado José Francisco Castilho Neto e os peritos Eurico Montenegro e Renato Rodrigues, que buscaram junto ao FBI e organizaram toda a documentação existente hoje no Brasil, estão de volta às investigações. Os três haviam sido colocados na geladeira durante a administração tucana na PF. “É o maior caso de evasão de divisas que eu conheço”, admitiu Lacerda na quinta-feira 6. “Vamos investigar tudo e não cederemos a pressões de qualquer natureza”, adverte o ministro Márcio Thomaz Bastos, antecipando-se a eventuais novos nomes que o dossiê-bomba da PF venha a revelar.

O grupo, reforçado por dois escrivães, voltará aos EUA nas próximas semanas para buscar os documentos que trazem as movimentações bancárias no biênio 1998-1999. Até agora, o trabalho dos peritos foi um exercício de abnegação. “O número de peritos é pequeno para o volume de informações que está sendo investigado”, diz o presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais, Roosevelt Júnior. A divulgação do laudo também provocou uma corrida de procuradores que investigam separadamente casos de lavagem em vários Estados.

O procurador Guilherme Schelb, que apura outros casos de lavagem, pediu o bloqueio das três contas suíças do contrabandista e traficante foragido João Arcanjo Ribeiro. O procurador Luís Francisco de Souza, que rastreia os passos de Ricardo Sérgio, também quer ter acesso aos laudos produzidos pela PF. O cearense José Gerin não perdeu tempo. Desembarcou em Foz do Iguaçu esta semana para buscar detalhes sobre a quadrilha de doleiros que opera na região Nordeste, entre eles Wilson Roberto Landim, preso há duas semanas, que, pelos documentos, remeteu para o Exterior quase US$ 1 milhão em apenas seis meses.

OS BONS COMPANHEIROS

Principal articulador da formação dos consórcios que disputaram o leilão das empresas de telecomunicações, o ex-diretor da área internacional do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de Oliveira, saiu das sombras do tucanato ao ser captado num grampo do BNDES em que dizia ao ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros que iria conceder uma carta de fiança ao consórcio coordenado pelo Banco Opportunity. “Estamos agindo no limite da irresponsabilidade”, disse Ricardo Sérgio no grampo. Depois da revelação, Ricardo Sérgio passou a sofrer uma série de investigações no MP e na PF. Acusado de receber propina de empresas que participaram da privatização, Ricardo Sérgio está sendo investigado também por enriquecimento ilícito.

Ao assumir o cargo em 1994, convidou para chefe de gabinete o seu fiel escudeiro João Bosco Madeiro da Costa. Por indicação do ex-diretor do BB, Madeiro foi posteriormente para o cargo de diretor de investimentos da Previ, o milionário fundo de pensão do BB que participa do controle acionário da maior parte das teles privatizadas. Relatórios da Secretaria de Previdência Complementar, do Ministério da Previdência, revelaram que Madeiro centralizava todo o poder de negociação do fundo com grandes empresas. Segundo o Ministério Público, Madeiro também é suspeito de enriquecimento ilícito.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A religião contra o Estado


Tulio Vianna

A religião é a política realizada em nome de Deus. O líder religioso, assim como qualquer líder político, pretende governar o maior número de pessoas possível. Um governo que se faz não por leis, mas por dogmas.
O monoteísmo é autoritário na sua essência. Nunca houve plebiscitos e nem mesmo reuniões com representantes eleitos pelo povo para criar os dogmas de uma religião. Eles são ditados de cima para baixo, por alguém que fala em nome do próprio Deus e, portanto, é incontestável, mesmo pela vontade da maioria.
Como os líderes religiosos não dispõem, nos dias de hoje, de um braço armado para fazer valer suas leis pela força, precisam convencer seus governados a se sujeitarem às suas normas pelo proselitismo. E mais: precisam convencer também aqueles que não se sujeitam àquelas normas, ao menos a respeitá-las.
A fé é a mais autoritária das ideologias políticas já inventadas. Um instrumento político quase perfeito que permite ditar normas unilateralmente, governar sem a necessidade de armas e, ainda por cima, blindar-se de críticas em nome da tolerância religiosa.
Como em toda ideologia, há aqueles que acreditam piamente nela e lutam para vê-la concretizada e há também aqueles que simplesmente a tomam como pretexto para satisfazer seus interesses pessoais. Creiam ou não em sua ideologia e em seus deuses, todos agem politicamente no sentido de agregar cada vez mais um número maior de seguidores e de acumular riquezas para sustentar a expansão de sua ideologia e de seu poder político.
E não há nada de errado, por si só, em tentar expandir uma religião ou uma ideologia, acumulando patrimônio e gente disposta a seguir seu código de condutas. É natural que as pessoas se unam em torno de convicções comuns e a partir daí surjam lideranças políticas. O problema surge quando estas lideranças reconhecidas dentro de um grupo resolvem expandir seu poder político para além do grupo, impondo suas normas de condutas não a quem resolveu por conta própria aderir a elas, mas a quem tem ideologias e deuses completamente diferentes. Neste ponto, não se trata mais de uma questão religiosa, mas de uma questão meramente política. A religião só é religião até ser imposta; depois disso é simplesmente política e pode ser exercida tanto pela força das armas como pelos votos de uma maioria fundamentalista. E o uso do nome de Deus para mascarar o exercício deste poder político é a ferramenta política mais hipócrita que já se inventou, mas tem funcionado muito bem ao longo da história.
O exemplo mais bem sucedido deste exercício de poder político em nome de Deus é o da Igreja Católica Apostólica Romana, que acumulou riquezas e impôs suas normas de condutas para populações espalhadas por todo o mundo em nome de seu Deus, durante vários séculos. A Inquisição e a catequização de índios não foram ações religiosas, mas políticas. E pouco importam as boas ou más intenções daqueles que as realizaram, o fato é que buscavam com elas impor normas de condutas a populações que não a aceitaram por livre e espontânea vontade.
O neopentecostalismo e a bancada teocrática
Na atualidade, o Vaticano perdeu grande parte de seu poder político na Europa e, mesmo no Brasil, onde sempre foi muito forte, tem perdido espaço para o neopentecostalismo que, nos últimos anos, vem acumulando grande poder político e econômico.
Se, por um lado, a ausência da uma liderança unificada dificulta o exercício do poder político por estas novas lideranças, por outro, sua ideologia espiritual favorece bastante a acumulação de riquezas pelos seus pastores. Enquanto a moral católica considera a temperança, a caridade e a humildade como virtudes, o neopentecostalismo está fundado na Teologia da Prosperidade e afirma que os verdadeiros fiéis devem desfrutar de uma excelente situação econômica. Há, é claro, um detalhe: para que Deus conceda ao fiel as benesses materiais, é preciso que este faça um pacto com Ele, oferecendo-Lhe toda sorte de oferendas materiais, dentre as quais se destaca o dízimo. É a chamada Doutrina da Reciprocidade, que viabilizou todas estas rápidas expansões de igrejas neopentecostais nos últimos anos.
Escudados na liberdade religiosa, pastores cobram impostos privados de seus fiéis – o famoso dízimo – e não precisam pagar qualquer imposto ao Estado, pois a Constituição da República garante em seu artigo 150, VI, b, a imunidade tributária a templos de qualquer culto. Verdadeiros impérios econômicos vêm sendo erguidos assim, tal como ocorreu no passado com a Igreja Católica. E, tal como ocorreu no passado também, esse dinheiro vem sendo usado para expandir o poder político dos líderes desta Igreja, seja por meio da aquisição de meios de comunicações (inclusive de redes de televisão), seja pelo financiamento de campanhas para cargos públicos destes líderes que cada vez mais vêm ocupando cargos, especialmente no Parlamento brasileiro.
Como sempre, os novos líderes espirituais afirmam que todos estes investimentos materiais têm como único e exclusivo objetivo a expansão da palavra do Deus deles e de seu código moral, que, como em toda boa religião monoteísta, deve ser universalizado para o “bem de todos”. Ainda que se admita, porém, que não haja interesses pessoais por trás da expansão destes impérios da fé, fato é que o seu principal objetivo declarado é a expansão de seu poder político, açambarcando a cada dia um número maior de fiéis e impondo seu código de condutas a um maior número de pessoas. Mesmo que para isso precise passar por cima do Estado Democrático de Direito que, ao contrário do monoteísmo, não impõe normas unilateralmente e pressupõe o respeito à pluralidade de opiniões.
Do ponto de vista exclusivamente político, o Estado Democrático de Direito é o maior entrave à expansão do império econômico e político das igrejas neopentescostais e de seus bispos. Não é à toa que cada vez mais eles têm buscado conquistar cadeiras do Parlamento. E a bancada teocrática tem se tornado a cada dia uma das principais forças políticas de nosso Congresso, restringindo os direitos fundamentais de quem não acredita em seu Deus em prol da expansão política e econômica de seu império.
A teocracia é incompatível com o Estado Democrático de Direito, dado o autoritarismo inerente ao monoteísmo. Não se realizam votações para saber se é da vontade de Deus receber dízimos ou condenar os homossexuais a passarem a eternidade no inferno. São seres humanos que afirmam isso e que impõem aos outros a palavra de Deus que eles próprios escreveram. E estas são ações políticas e como tais devem ser tratadas.
E é por isso que o Estado Democrático de Direito é, por sua própria natureza, laico. Porque é impossível ser democrático e monoteísta ao mesmo tempo. Assim como é impossível ser candidato a um cargo público e bispo, pastor ou padre ao mesmo tempo. Há um evidente conflito de interesses entre aquele que fala em nome de seu Deus e aquele que pretende falar em nome do povo em meio ao qual nem todos acreditam em seu Deus.
Para minimizar esta incompatibilidade é necessário, ao menos, que se exija que bispos, padres, pastores e outros clérigos se licenciem de suas atividades sacerdotais um ano antes de se candidatarem a cargos públicos. Restrição semelhante já é aplicada pela lei complementar 64/90 a magistrados, diretores de sindicatos e outros cargos públicos, tendo em vista a incompatibilidade de suas funções com uma campanha eleitoral, e poderia perfeitamente ser aplicada também aos sacerdotes de qualquer crença. Projeto de lei neste sentido foi apresentado pela deputada Denise Frossard (PSDB-RJ) na Câmara dos Deputados em 2004 (PLP 216/2004), mas foi arquivado em 2007, pois ainda se encontrava em tramitação no fim da 52ª legislatura e não houve pedido de desarquivamento na legislatura seguinte.
Uma outra iniciativa necessária é limitar a transmissão de programas religiosos em rádios e televisões para no máximo uma hora diária, tal como foi proposto em 1999 (PLS 299/99) pelo senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT). A Constituição da República é explícita em seu artigo 221, ao determinar que a programação das emissoras de rádio e televisão terá, por preferência, finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. É inconcebível que, no Estado laico, concessões públicas de rádio e TV sejam usadas, como são nos dias de hoje, em prol do proselitismo religioso que não raras vezes passa boa parte do tempo solicitando doações financeiras a seus fieis. Um autêntico merchandising da fé, patrocinado pelo Estado que, por definição constitucional, é laico.
Lamentavelmente, porém, há pouca vontade e coragem política dos parlamentares brasileiros de desafiar o poder político e econômico do novo e do velho clero. A esquerda tem sido bastante leniente com as violações do Estado laico e as poucas inciativas para amenizar o problema, como se viu, por mais paradoxal que seja, partiram do conservador PSDB.
O Brasil precisa urgentemente de uma bancada secular no Congresso Nacional para fazer frente à bancada teocrática (que prefere ser chamada de evangélica). Os valores democráticos da laicidade precisam ser reafirmados por parlamentares que não temam desafiar o crescente fundamentalismo religioso que a cada dia ganha espaço na política brasileira. Não se trata de um combate a qualquer religião, mas à política realizada em nome de Deus e que pretende impor seus códigos de condutas conservadores a toda uma população.
A luta pela efetivação do Estado laico é a luta pela democracia. Por leis que sejam ditadas não de cima para baixo por uma autoridade que fala em nome de Deus, mas construídas a partir do diálogo plural e com respeito aos direitos fundamentais. E isto, deus monoteísta nenhum poderá conceder, pois seus mandamentos são – por definição – mandamentos.
Monoteísmo e democracia são ideologias políticas antagônicas. É esta a grande cruzada da religião contra o Estado.
Túlio Vianna
 Túlio Vianna é Professor de Direito Penal dos cursos de graduação e pós-graduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais.
Doutor em Direito do Estado pela Universidade Federal do Paraná (2006) e Mestre em Ciências Penais pelaUniversidade Federal de Minas Gerais (2001), onde também se bacharelou (1999).
Autor dos livros Fundamentos de Direito Penal Informático (Forense, 2003) e Transparência pública, opacidade privada(Revan, 2007), este último com tradução para o espanhol publicada na Argentina (Ad-hoc, 2010).

terça-feira, 17 de abril de 2012

Os limites do lulismo


VLADIMIR SAFATLE

Os limites do lulismo


Há alguns anos, o cientista político André Singer cunhou o termo "lulismo" para dar conta do modelo político-econômico implementado no Brasil desde o início do século 21.

Baseado em uma dinâmica de aumento do poder aquisitivo das camadas mais baixas da população por meio do aumento real do salário mínimo, de programas de transferência de renda e de facilidades de crédito para consumo, o lulismo conseguiu criar o fenômeno da "nova classe média".

No plano político, esse aumento do poder aquisitivo da base da pirâmide social foi realizado apoiando-se na constituição de grandes alianças ideologicamente heteróclitas, sob a promessa de que todos ganhariam com os dividendos eleitorais da ascensão social de parcelas expressivas da população.

O resultado foi uma política de baixa capacidade de reforma estrutural e de perpetuação dos impasses políticos do presidencialismo de coalizão brasileiro.
No entanto é bem possível que estejamos no momento de compreensão dos limites do modelo gestado no governo anterior. O aumento exponencial do endividamento das famílias demonstra como elas, atualmente, não têm renda suficiente para dar conta das novas exigências que a ascensão social coloca na mesa.

É fato que o país precisa de uma nova repactuação salarial. As remunerações são, em média, radicalmente baixas e corroídas por gastos que poderiam ser bancados pelo Estado. Por isso, é possível dizer que a próxima etapa do desenvolvimento nacional passe pela recuperação dos salários.

A melhor maneira de fazer isso é por meio de uma certa ação do Estado. Uma família que recebe R$ 3.500 mensais gasta praticamente um terço de sua renda só com educação privada e planos de saúde. Normalmente, tais serviços são de baixa qualidade. Caso fossem fornecidos pelo Estado, tais famílias teriam um ganho de renda que isenção alguma de imposto seria capaz de proporcionar.

Entretanto, a universalização de uma escola pública de qualidade e de um serviço de saúde que realmente funcione não pode ser feita sob a dinâmica do lulismo, pois ela exige investimentos estatais só possíveis pela taxação pesada sobre fortunas, lucros bancários e renda da classe alta. Ou seja, isso exige um aumento de impostos sobre aqueles que vivem de maneira nababesca e que têm lucros milionários no sistema financeiro.

Algo dessa natureza exige, por sua vez, uma mobilização política que está fora do quadro de consensos do lulismo.Porém a força política que poderia pressionar essa nova dinâmica ainda não existe no Brasil. Ela pede uma esquerda que não tenha medo de dizer seu nome.

quinta-feira, 22 de março de 2012

O ESPREMEDOR DE CULHÕES


(Do livro – Crônicas de um Amor Louco - Charles Bukowski)
_______________
Danforth pendurou os corpos no varal, um a um, depois de passarem
pelo espremedor. Bagley, sentado perto dos telefones pergunta:
- Quantos tem?
- 19. Pelo jeito o dia vai ser bom.
- É, pô, tá com cara. Quantos colocamos ontem?
- 14.
- Legal, legal. Continuando assim, vai ser bom mesmo. O meu grilo é
que a coisa no Vietnã é bem capaz de parar - disse Bagley.
- Deixa de ser bobo, tem muita gente lucrando e dependendo dessa
guerra.
- Mas a Conferência de Paz em Paris...
- Você hoje não está bom, Bag. Quem é que não sabe que eles passam
o dia inteiro sentados, dando risada, recebendo grana pra não fazer
nada e depois indo à noite a tudo quanto é boate? Essa cambada tá
com a vida ganha. A vontade que têm de terminar a Conferência de
Paz é igual à nossa de liquidar com a guerra. Tá todo mundo
engordando, sem se arranhar. Uma verdadeira beleza e se
encontrarem uma forma de chegar por acaso a um acordo, sempre vão
aparecer outras. A terra tá cheia de lugares prontos pra explodir.
- É, acho que vivo me preocupando à toa.
Um dos três telefones da mesa tocou. Bagley atende.
- AGÊNCIA DE EMPREGOS SATISFAÇÃO GARANTIDA. Bagley, às suas
ordens - Fica escutando - É, sim, nós temos um ótimo contador.
Salário? 300 dólares nas duas primeiras semanas, 300 cada, bem
entendido. O pagamento das duas primeiras fica pra agência. Depois
vocês reduzem pra 50 por semana ou põe na rua. Se puserem na rua
depois das duas semanas, VOCÊS é que recebem cem dólares da
gente. Porquê? Ora, que diabo, então não está vendo que a idéia é
manter a rotatividade do negócio? Pura questão de psicologia, que
nem a figura do Papai Noel no Natal. Quando? Sim, vamos mandar
em seguida. Qual é o endereço? Ótimo, perfeito, daqui a pouco ele
está aí. Não se esqueça das condições. Ele leva o contrato. Tchau.
Bagley desliga. Cantarola baixinho, sublinha o endereço.
- Tira um do varal, Danforth. Um bem magro e cansado. Não vale a
pena mandar logo o melhor.
Danforth vai ao varal e retira os pregadores dos dedos de um bem
magro e cansado.
- traz cá. Como é o nome dele?
- Herman. Herman Telleman.
- Xi, que merda, não vai dar. Parece que ainda tem um pouco de
sangue. E o olho também não perdeu toda a cor... acho eu. Escuta
aqui, Danforth, essa sua máquina tá espremendo direito? Eu não quero
que sobre culhão nenhum, todas as resistências têm que sumir, tá
entendendo? Cuida da tua parte que eu cuido da minha.
- Alguns desses caras quando chegam aqui são duros de roer. E você
sabe muito bem que nem todos têm culhão. Não é sempre que dá pra
adivinhar.
- Tá legal, vamos ver este aqui. Herman. Ei filhote!
- Que foi paizinho? - Que me diz de um empreguinho legal?
- Ah, não porra!
- O quê? Não quer um empreguinho legal?
- A troco de que, merda? O meu vellho era de Jersey, trabalhou pra
burro a vida inteira e quando morreu a gente enterrou com todo o
dinheiro que tinha, sabe quanto era?
- Quanto?
- 15 cents. O saldo de uma vida desgraçada e infeliz.
- Mas você não gostaria de casar e ter filhos, casa própria, entrar pra
classe média? Comprar carro novo de 3 em 3 anos?
- Não quero nada com o batente, velhão, ninguém vai me botar em
gaiola de mola. Quero só me espraiar por ai. Tô me lixando pro resto.
- Danforth, passa esse sacana de novo no espremedor e aperta bem os
parafusos!
Danforth agarra o artigo pela nuca, mas não antes de Telleman berrar:
- Vai foder o cu da mãe!...
- E espreme bem TODO ESSE CULHÃO DELE. ATÉ QUE NÃO SOBRE
NADA! Tá ouvindo?
- Tá certo, já ouvi! - reponde Danforth. - merda, às vezes eu acho que
você ficou com a parte do osso mais fácil de roer!
- Deixa esse negócio de osso de lado! Espreme bem e tira o culhão
desse cara. O Nixon é capaz de acabar com a guerra...
- Lá vem você com essa bobagem de novo! Acho que tu não anda
dormindo direito, Bagley. Tem alguma coisa errada contigo.
- É, é sim. Tem razão. Insônia. Fico sempre pensando que a gente devia
estar preparando soldados! Me reviro na cama a noite inteira! Que
grande negócio não ia ser!
- Bag, a gente faz o que pode com o que a gente tem, mais nada.
- Tá certo, tá certo. Ele já passou pelo espremedor ?
- DUAS VEZES, já tirei o culhão todo. Você vai ver.
- Tá legal, traz correndo pra cá. Vamos dar uma olhada.
Danforth traz Herman Telleman de volta. Não resta duvida que está
diferente. A cor dos olhos sumiu por completo e o sorriso é totalmente
amarelo, uma beleza.
- Herman? - chama Bagley.
- Sim, chefe.
- O que é que está sentindo? Ou melhor, como se sente?
- Não sinto absolutamente nada chefe.
- Você gosta de tiras?
- Tiras não, chefe - polícias. Eles são vitimas da nossa maldade, embora
às vezes nos protejam atirando, prendendo, espancando e multando a
gente. Não existe essa história de que não há tira que preste aliás,
polícia, desculpe. Já imaginou se não houvesse polícia? A gente teria
que impor a lei com as nossas próprias mãos.
- E aí, o que ia acontecer?
- Nunca parei pra pensar, chefe.
- Ótimo. Acredita em Deus?
- Ah, claro que sim chefe. Em Deus, Pátria, Família, Tradição. E no
trabalho honesto.
- Puta que pariu!
- Como disse chefe?
- Não. Nada. Agora, escuta aqui, você gosta de fazer serão?
- Ah, claro que sim, chefe! Gostaria de trabalhar 7 dias por semana, se
possível. E de ter 2 empregos se pudesse.
- Por quê?
- Por causa do dinheiro, chefe. Pra comprar TV a cores, carro novo, dar
entrada pra casa própria, pijama de seda, 2 cachorros, barbeador
elétrico, seguro de vida, assistência médica, ah, tudo quanto é tipo de
seguro, educação escolar para os meus filhos, se eu tiver, porta
automática na garagem, roupas finas, sapatos de 45 dólares, câmeras,
relógio de pulso, anéis, lavadora automática, geladeira, poltronas e
camas novas, forração de carpete em todas as peças, donativos pra
igreja, aquecimento central e...
- Tá legal. Chega. Agora, quando é que pretende usar todos esses
troços?
- Não estou entendendo, chefe.
- Quero dizer, se você trabalhar dia e noite ainda fizer serão, que tempo
te sobra pra aproveitar todo esse luxo?
- Ah, esse dia há de chegar, chefe, ele há de chegar!
- E não acha que teus filhos um dia hão de crescer e julgar que você foi
um trouxa?
- Depois de ter me esfolado vivo por causa deles, chefe? Claro que não!
- Maravilha. Agora, só mais algumas perguntas.
- Pois não, chefe.
- Não acha que toda essa escravidão permanente é prejudicial pra saúde
e pro espírito, pra alma, se quiser...?
- Ah, pô, se eu não ficasse trabalhando o tempo todo, ia acabar sentado
por aí, bebendo, pintando quadros a óleo, fodendo, indo ao circo ou no
parque pra ver os patos. Coisas desse gênero.
- Não acha que ficar sentado no parque, olhando para os patos, pode
ser muito agradável?
- Mas desse jeito eu não ganho dinheiro, chefe.
- Tá legal, vá se foder.
- O que, chefe?
- Não, nada. Já sei de tudo o que precisava. OK, Dan, este aqui tá no
ponto. Parabéns. Dá o contrato, pega a assinatura dele, a letra é tão
miúda que nem vai conseguir ler. Acha que somos gente boa. Manda
correndo lá no endereço. O pessoal vai ficar encantado. Há meses que não arrumo melhor contador.
Danforth pega a assinatura, verifica os olhos de novo pra se certificar
se não tem mais vida, põe o contrato e o envelope na mão e
acompanha Herman até a porta, empurrando de leve pra descer a
escada. Bagley simplesmente se recosta na cadeira com um vasto
sorriso de satisfação e fica observando enquanto Danforth passa os 18
restantes pelo espremedor. Seria difícil dizer aonde vão parar todos
aqueles culhões, mas não há que negar, mais dia menos dia, todo homem deixa de ter culhões, os que deixam com maior facilidade
estão rotulados de "casados e com filhos" ou "idade superior a 40".
Assim recostado, enquanto Danforth vai espremendo um a um,
Bagley presta atenção nas conversas:
- É duro achar emprego para um homem da minha idade, ah puxa se é!
Outro canta:
- Oh, baby it's cold outside.
Outro:
- Já estou cansado dessa vida de bookmarker e cafetão, indo sempre
parar na cadeia. Preciso de segurança, segurança...
Outro:
- Tá certo, me diverti feito doido. Agora...
Outro:
- Não me especializei em coisa nenhuma. Todo homem devia se
especializar, não me especializei em nada, o que é que vou fazer?
Outro:
- Já estive em tudo quanto é país - graças ao exército - e sei como são
as coisas.
Outro:
- Se pudesse começar tudo de novo, ia ser dentista ou barbeiro.
Outro:
- Estão sempre desenvolvendo romances, contos e poemas que escrevo.
Que merda eu não posso ir pra Nova York e ficar puxando o saco de
tudo quanto é editor! Não há ninguém com mais talento do que eu,
mas sem pistolão não adianta! Se me contento com qualquer tipo de
trabalho indigno de mim, é por que sou gênio!
Outro:
- Tá vendo como sou bonito? Olha o meu nariz! As orelhas! O cabelo! A
pele! O meu modo de ser! Viu? Tá vendo como sou bonito? Tá vendo
bem? Sabe por que ninguém vai com a minha cara? É porque eu sou
bonito. É tudo inveja. Só por inveja. Pura e simplesmente.
O telefone toca de novo.
- AGÊNCIA DE EMPREGOS SATISFAÇÃO GARANTIDA. Bagley, às suas
ordens. Você o quê? Precisa de um mergulhador? Filha da mãe! Como?
Ah, desculpe. Lógico, evidente, temos dezenas de mergulhadores
desempregados. As duas primeiras semanas de pagamento ficam pra
agência. 500 semanais. Perigoso, sabe, muito arriscado mesmo.
Cracas, caranguejos, tudo mais... algas marinhas, sereias nas rochas.
Polvos. Amarras. Resfriados. É foda, sim. As 2 primeiras semanas de
salário são da agência. Se depois acharem que ele não serve, nós é
que pagamos 200 dólares pra vocês. Por quê? Por quê? Se um
passarinho vem e bota um ovo de ouro na sala da frente da tua casa,
você pergunta POR QUÊ? Pergunta? Vamos lhe mandar um
mergulhador dentro de 45 minutos! Qual o endereço? Ótimo, ótimo, ah
sim, ótimo, é perto do edifício Richfield. Sim, eu sei. 45 minutos.
Obrigado. Passe bem.
Bagley desliga. Já está exausto e o dia mal começou.
- Dan?
- Sim, boneca?
- Me traz um que tenha tipo de mergulhador. Bem barrigudo. Olhos
azuis, um chumaço de pelos no peito, calvície prematura, bastante
estóico, meio corcunda, míope e os primeiros prenúncios, ainda
ignorados, de câncer no esôfago. Qualquer mergulhador é assim. Todo mundo sabe como é. Agora traz um.
- Tá legal, seu cabeça de merda.
Bagley boceja. Danforth desprega um do varal. Traz o infeliz até a
mesa, onde fica parado, de pé. No rótulo se lê "Barney Anderson".
- Oi Barney - diz.
- Bag, onde é que eu estou? - pergunta Barney.
- Na AGÊNCIA SATISFAÇÃO GARANTIDA.
- Pô, estou pra ver dois safados com mais cara de vigaristas do que
vocês!
- Porra, Dan! Qual é?
- Passei quatro vezes pelo espremedor.
- Eu te respondi que tem alguns que são duros de roer!
- Isso é pura conversa, seu burro de merda!
- Quem é que é burro de merda?
- Vocês dois - responde Barney Anderson.
- Quero que você passe três vezes o rabo deste aí no espremedor. - diz
Bagley.
- Tá bem, tá certo, mas primeiro vamos fazer um teste.
- Tá legal. Por exemplo... pede pra este tal de Barney te dizer quais são
os ídolos dele.
- Bom, deixa eu ver... Claver, Dillinger, Che, Malcolm X, Gandhi, Jersey
Joe Walcott, "Grandma", Barker, Fidel Castro, Van Gogh, François
Villon, Hemingway.
- Viu, ele se identifica com todos os derrotados. Assim ele se sente bem.
Tá se preparando pra perder a jogada. Pode contar com a nossa
ajuda. Foi logrado com esse papo de alma e é desse modo que a gente
prende o rabo deles. Alma não existe. É pura cascata. Não existem
ídolos. É tudo onda. Não existe ninguém vitorioso na vida - é pura
cascata, papo furado. Não há santos e nem gênios - tudo não passa de
conversa mole pra boi dormir, conto da carochinha, só pro jogo
continuar. Cada homem se esforça pra sobreviver e ter sorte - se
puder. O resto não dá pra engolir.
- Tá bom, tá bom, já saquei o que você quer dizer! Mas, e o Fidel
Castro? Tava bem gordo na última foto que eu vi.
- Ele só tá durando por que os E.U.A. e a Rússia resolveram deixar o
cara no meio do fogo. Mas vamos supor que, de repente, coloquem as
cartas na mesa? Pra onde é que ele vai se virar? Rapaz, o cacife desse
cara é tão fraco que não dá pra pagar nem a entrada num puteiro
decadente do Egito.
- Vão tomar no cu, vocês dois! Eu gosto de quem eu quiser! - protesta
Barney Anderson.
- Barney, quando o cara não tem onde cair morto, e tá encurralado,
faminto e cansado - ele é capaz de chupar pica, mamica e até de
comer bosta pra poder continuar vivo; ou se conforma ou se suicida. A
raça humana não tá com nada, rapaz, não é flor que se cheire.
- Por isso nós vamos mudar tudo, cara. Aí é que tá o lance. Se já deu
pra chegar na lua, também dá pra limpar a cagada no penico. O mal é
que a gente andou perdendo tempo com o que não devia.
- Você tá doente, garotão. Meio barrigudinho. E começando a ficar
careca. Dan, bota aí o distinto em forma.
Danforth pega Barney Anderson, bate, torce e espreme, sem fazer
casos do grito, três vezes no espremedor, e depois traz de volta.
- Barney? - chama Bagley.
- Pronto, chefe!
- Quais são teus ídolos?
- George Washington, Bob Hope e Mae West, Richard Nixon, os ossos do
Clark Gable e toda a gente que vi na Disneylândia. Joe Louis, Dinah
Shore, Frank Sinatra, Babe Ruth, os Boinas Verdes, porra, todo o
exército e a marinha dos Estados Unidos e, principalmente, os
Fuzileiros Navais, e até o Tesouro Nacional, a CIA, o FBI, a United
Fruit, a patrulha rodoviária, o maldito departamento de policia de Los
Angeles em peso, e os tiras locais também, aliás disse "tiras" por
engano, quando queria dizer "polícia". Depois tem a Marlene Dietrich,
com aquela abertura no lado do vestido até em cima da coxa, ela já
deve andar perto dos 70, não é? Dançando lá em Las Vegas, fiquei de
pau duro, que mulher maravilhosa, a boa vida que leva aqui na
América e a estabilidade do dólar são capazes de manter eternamente
a juventude da gente, entendeu?
- Dan?
- Que é, Bag?
- Este aqui tá mais que no ponto! Mesmo pra um cara pouco sensível
como eu, deu pra ficar com ânsia de vomito. Faz ele assinar o
contratinho dele e manda lá no endereço. Eles vão adorar. Santo
deus, as coisas que a gente tem que fazer pra sobreviver! Às vezes
chego a odiar o próprio trabalho que faço. O que não convém, não é,
Dan?
- Claro que não, Bag. E assim que despachar esse cara de cu, eu tenho
um presentinho pra você - uma dose daquele velho Tônico, tão
gostoso.
- Ah, mas que bom..... qual é mesmo?
- Só meia volta na manivela do espremedor.
- O QUÊ?!
- Ah, não tem nada que se compare pra acabar com as tristezas ou
idéias inconvenientes. E outras coisas no gênero.
- Será que cura de verdade?
- É melhor que aspirina
- Tá legal, vê se livra do cara de cu.
Barney Anderson é despachado escada abaixo. Bagley levanta da
cadeira e vai ate o espremedor mais próximo.
- Essas coroas - a West, a Dietrich, ainda de tetas e cochas de fora,
porra, que coisa mais sem pé nem cabeça, já estavam nessa quando
eu era criança. Como é que pode?
- Tapeando . Esticando a pele, os músculos, por meio de cintas, de
talcos, de refletores, de forros de carne, enchimentos, cremes, palha e
esterco são capazes de deixar a avó da gente com cara de broto?
- A minha já morreu.
- Mesmo assim são capazes.
- É, é sim, acho que você tem razão.
Bagley vai para perto do espremedor.
- Só meia volta na manivela. Dá pra confiar em você?
- Tu não é meu sócio, Bag?
- Claro que sou, Dan.
- Há quanto tempo a gente trabalha junto?
- 25 anos.
- Então tá, quando eu digo MEIA VOLTA , É MEIA VOLTA mesmo.
- E o que é que eu faço?
- Enfia a mão no cilindro, mais nada. É que nem a máquina de lavar a
roupa.
- Ali dentro?
- É. Tá pronto? Oba!
- Ei, cara, não esquece. Só meia volta.
- Lógico, Bag, não confia em mim?
- Agora? Que remédio?
- Andei fodendo tua mulher escondido, sabia?
- Seu miserável filho da puta! Eu te mato!
Danforth deixa o espremedor ligado, senta atrás da mesa de Bagley,
acende um cigarro, e começa a cantar:
Lucky, lucky me,
I can live in luxury Because
I ve got a pocket full of dreams...
I got an empty purse,
But I own the universe,
BecauseI've got a pocket full of dreams...
Se levanta e se aproxima do espremedor e de Bagley
- Você falou meia volta - Bagley reclama - e já foi volta e meia.
- Não confia em mim?
- Mais do que nunca, não sei por que.
- E, no entanto, andei fodendo tua mulher escondido.
- Ah, acho que não tem importância. Já estou cansado de foder ela.
Todo homem cansa de foder sempre a mesma mulher.
- Mas o que eu quero é que você queira que eu foda a tua.
- Bem, eu pouco tô ligando, só não sei exatamente se quero que você
foda.
- Daqui a cinco minutos eu volto.
Danforth se afasta, senta na poltrona giratória de Bagley, põe os pés
em cima da mesa e fica esperando. Gosta de cantar e canta:
I got plenty of nuthin
And nuthin s plenty for me
I got the stars, I got the sun,
I got the shining sea...
Depois de fumar dois cigarros , volta pra junto da máquina.
- Bag, ando fodendo tua mulher escondido.
- Ah, eu quero que você foda, cara! É só o que eu quero! E sabe do que
mais?
- O quê?
- Acho até que gostaria de ver
- Lógico, que dúvida.
Danforth vai ao telefone e disca o número.
- Minnie? É, Dan. Vou até aí pra gente foder de novo. Bag? Ah, vai
junto. Ele quer ver. Não, ninguém tá bêbado aqui. Apenas resolvi
encerrar o expediente por hoje. Já fizemos tudo que tinha pra fazer.
Com o negócio entre Israel e os árabes, e toda essa guerra na África, ninguém mais precisa se preocupar. Biafra é uma palavra muito
bonita, mas como te disse, a gente está indo pra aí. Quero comer o teu
cu. Essas bochechas gordas que você tem, puta que pariu! Sou capaz
também de comer o Bag. Acho que as bochechas dele são maiores que a tua. Fica aí quietinha, paixão, que a gente tá a caminho!
Desliga. Outro telefone toca. Dan atende. - Vai te foder, seu sacana de
merda! Até a ponta dos teus mamilos fedem que nem bosta mole de
cachorro quando tem vento oeste.
Desliga e sorri.Vai até Bagley e tira ele do espremedor. Trancam a
porta do escritório e descem os degraus juntos. Quando chegam na
calçada, o sol está alto e de boa cara. Dá pra enxergar pela
transparência da saia justa das mulheres. E quase se adivinham os
ossos. Há morte e podridão por tudo quanto é lado. Estão em Los
Angeles, perto da esquina da 7º Avenida com a Broadway, o
cruzamento onde os mortos esnobam os mortos, sem saber por que.
Uma brincadeira que qualquer um é capaz de aprender, feito pular
corda, dissecar rãs, mijar na caixa de correspondência ou bater
punheta no cachorro de estimação, os dois cantam:
We got plenty a nuthin
And nuthin is plenty for we...
Chegaram de braço dado na garagem do subsolo, encontraram o
Cadillac 69 de Bag, entram no carro, cada um acende um charuto de
um dólar, Dan no volante, saem dali, quase atropelam um bêbado que
desce a calçada da Pershing Square, viram na direção oeste, rumo a
pista em alta velocidade, a liberdade ao Vietnã, ao exército, é foda, às
vezes extensões de gramado, estátuas nuas e vinho francês, a Beverly
Hills ...
Bagley se abaixa e abre a braguilha de Danforth, que continua
dirigindo.
Espero que deixe um pouco pra mulher dele, pensa Dan.
É de manhã e não faz muito calor em Los Angeles ou talvez já seja de
tarde. Verifica no relógio do painel de instrumentos - os ponteiros
marcam 11 e 37, a hora exata em que chega ao orgasmo. Aumenta a
velocidade do Cadillac. 130 km por hora. O asfalto desliza no solo
como os túmulos dos mortos. Liga a TV do painel, depois pega o
telefone e aí se lembra de fechar a braguilha.
- Minnie, eu amo você.
- Eu também te amo, Dan - retrucou ela - aquele vagabundo tá contigo?
- Tá bem do meu lado, acabou de encher a boca.
- Ah Dan, não desperdiça.
Ele solta uma gargalhada e desliga. Quase batem no crioulo que dirige
um carro-socorro. Não é negro coisa nenhuma, um tição e mais nada.
Não há melhor cidade no mundo pra quem está numa boa, e só uma
pior pra quem já dançou - o grande Danforth aumenta a velocidade
para 140. Um guarda de moto sorri quando o carro passa feito raio.
Talvez ligue depois para Bob, de noite. Bob é sempre tão engraçado.
Os 12 caras que escrevem para ele têm o dom de bolar grandes
piadas. E Bob tem a naturalidade de uma bosta de cavalo incrível.
Joga fora o charuto de um dólar, acende outro, aumenta a velocidade
do Cadillac para 150 e sai chispando no sol que nem flecha, os
negócios e a vida correm a mil maravilhas, e os pneus rodam em cima
dos mortos, dos moribundos e dos futuros defuntos.
ZUUUUUUUMMMMMMM!

Sugestão de breno sadock num comentário sobre   O conto 'A Brincadeira', de Anton Tchecov,   postagem do blog de Luís Nassif  (22/03/2012)